segunda-feira, 1 de agosto de 2011

A MOÇA MAIS VAGAL QUE HÁ


Eu lembro nitidamente da primeira vez que ouvi a voz de Simona Talma. Lembro da canção, do lugar, da hora, e principalmente da sensação indescritível diante de sua voz única; que mudou o espaço, mudou a paisagem, e mudou a mim mesmo naquele momento. Já faz uns anos... Era uma gravação caseira (ela ainda estava gravando o maravilhoso A Moça Mais Vagal que Há), de Confio a Um Blues que me foi enviada via internet por Luiz Gadelha.

Corta. Volta ao presente.

Anos depois, durante as gravações de Sem Parar, quando a base de Para Onde os Sonhos Vão? ficou pronta, me veio à mente a impressão de que havia um vazio ali, pedindo para ser preenchido exatamente por aquela voz que me surpreendera anos antes. Convite feito, convite aceito, o resultado ficou ainda melhor do que as minhas já muito altas expectativas. É mesmo um caso raro a voz inesperada dessa garota vagal, que corta as noites da cidade com sua facas cegas e suas mãos de tesoura. Eu, que também adoro caras mal comportados, só lamento que no dia em que ela veio ao estúdio a bateria da câmera acabou e nós quase ficamos sem uma foto sequer. Fizemos apenas essas duas, no celular.

Entretanto, meu caros amigos, há muitas outras imagens no meio disso tudo. Daquelas que só ouvindo... pra crer.

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

TRÊS: NÃO BASTA UM SÓ AMOR



Eu digo sempre que compor em parceria quase nunca é, para mim, uma escolha voluntária. Muito além disso, parcerias são encontros casuais, esbarrões, urgências de dois (ou mais, muito mais) criadores. Os três letristas que compuseram comigo no cd são, além de extremamente belos e talentosos, amigos muito queridos. Gosto de pensar que fui escolhido pelos textos que eles escreveram. Se há coincidências ou não, não sei, mas o certo é que as letras que eles escreveram são, cada uma a seu modo, afirmações da vida, do amor e da amizade.

O poema de Civone Medeiros, "É Dando Que Se Recebe", me chegou pela leitura de suas "Escrituras Sangradas". Quando li seu texto, aquelas palavras pareciam me dizer que já eram uma canção, sabiam que eram, e que me queriam junto, dentro do jogo. As outras duas letras me foram entregues como segredos confiados, palavras escritas para se tornarem canções quando a hora enfim chegasse. De Romildo Soares recebi "Sacrifício" ao final de um show. Ele a havia escrito enquanto eu cantava, para mim, e eu guardei aquilo como tesouro até o dia em que me elas, as palavras, decidiram namorar a música. Hugo Vargas Soliz, amigo de longa data, certo dia sonhou frases e escreveu a letra de "It's not for us". imaginem a reponsabilidade: quando alguém lhe confia a missão de transformar seu próprio sonho em canção. Além do mais, escrevendo em inglês Hugo conseguiu falar da vida e da morte com uma leveza e serenidade que só grandes poetas conseguem. Para minha surpresa, as idéias de sonho, amor e amizade são as mais presentes no disco.

Com tudo isso quero dizer que o meu amor pelas palavras também vem dessa troca, da comunhão, e que não importa de onde elas venham, ou de quem sejam, as palavras são os elementos que tornam a vida e a beleza possíveis. Gosto de sua arquitetura, do som, dos ruídos, das interferências e, principalmente, do que elas têm de surpresa. Gosto de como elas se perdem, se acham, se fragmentam, se encaixam e se quebram como uma onda na praia. Gosto de pensar que há sempre algo novo e inusitado dentro da caixa, como uma armadilha ou um cavalo de Tróia no qual a gente monta e sai por aí...